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GARRAFAS D'ÁGUA

  O quarto é grande e a busca infinitamente maior do que este. Ele lhe dá margem. Ele controla o fluxo e ao mesmo tempo faz transbordar. As noites passadas no bar se amontoam nos cantos do quarto. Ao lado da cama, perto da porta do banheiro, estão os sapatos. O chinelo marrom arrebentado. O último. O mesmo chinelo. Na verdade a repetição dele. Aos vinte anos o primeiro. E a repetição. Como se servissem para firmar o tempo, congelar o relógio tornando a juventude permanente.

  A cadeira de metal branca equilibra, quase como se tivesse braços para agarrar, a montanha de roupas limpas e amarrotadas que não chegaram até o armário. Junto com elas as peças que só saíram do armário para passear pelo corpo, encontrarem-se no espelho por alguns segundos para então agigantar ainda mais a montanha de tecido.
  O frigobar azul calcinha está guardando restos de comida e garrafas d'água. Faz barulho durante a noite. Parece até neto da velha geladeira marrom que viveu no apartamento da Nilo Peçanha , em Porto Alegre. Com a idade passou a exigir mais atenção e energia. Vazava durante a noite e nas manhãs geladas me acordava com o frio que subia pelos meus pés descalços e molhados. 

Luiza Mattos
Maio de 2013
Rio de Janeiro

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